Olá, vestibulando!
Ao longo dos anos, os exames vestibulares abandonaram a abordagem conteudista de língua portuguesa, a partir da qual eram cobrados conhecimentos de gramática normativa, e passaram a dar ênfase na leitura e interpretação de textos, bem como no funcionamento dos recursos linguísticos nos textos.
Tanto é que, em geral, as questões trazem algum texto-base ou imagem a partir dos quais o candidato deve demonstrar seu conhecimento de língua e de linguagem. Isso não significa que as provas hoje são muito mais fáceis ou que não há qualquer dificuldade em realizá-las. Por isso, neste post, analisamos duas questões de língua portuguesa que podem derrubar você na hora da prova.

  • Questão objetiva Fuvest (2013)

Texto para as questões de 71 a 73

A essência da teoria democrática é a supressão de qualquer imposição de classe, fundada no postulado ou na crença de que os conflitos e problemas humanos econômicos, políticos, ou sociais são solucionáveis pela educação, isto é, pela cooperação voluntária, mobilizada pela opinião pública esclarecida. Está claro que essa opinião pública terá de ser formada à luz dos melhores conhecimentos existentes e, assim, a pesquisa científica nos campos das ciências naturais e das chamadas ciências sociais deverá se fazer a mais ampla, a mais vigorosa, a mais livre, e a difusão desses conhecimentos, a mais completa, a mais imparcial e em termos que os tornem acessíveis a todos.
Anísio Teixeira, Educação é um direito. Adaptado.

73 Dos seguintes comentários linguísticos sobre diferentes trechos do texto, o único correto é:

  1. a) Os prefixos das palavras “imposição” e “imparcial” têm o mesmo sentido.
  2. b) As palavras “postulado” e “crença” foram usadas no texto como sinônimas.
  3. c) A norma-padrão condena o uso de “essa”, no trecho “essa opinião”, pois, nesse caso, o correto seria usar “esta”.
  4. d) A vírgula empregada no trecho “e a difusão desses conhecimentos, a mais completa” indica que, aí, ocorre a elipse de um verbo.
  5. e) O pronome sublinhado em “que os tornem” tem como referente o substantivo “termos”.

(Disponível em: <http://www.fuvest.br/vest2013/provas/prova_fuv2013_1fase.pdf>. Acesso em: 5 out. 2015.)
Este tipo de questão tem sido cada vez mais comum nas provas. É fornecido um texto sobre o qual se faz algumas perguntas envolvendo interpretação, intertextualidade e análise linguística. Você deve ter atenção redobrada sobre este último aspecto. É verdade que não ter que dizer qual é a classificação de uma oração subordinada ou o que são prefixos já é uma grande melhora, mas isso não significa que você não deve conhecer as regularidades da língua. A questão é que agora o foco é outro: se antes se cobrava as normas e classificações, hoje se cobra a compreensão do funcionamento dos recursos gramaticais.
Veja que, nesta questão da Fuvest, você precisa mobilizar diversos conhecimentos de gramática: prefixo e formação de palavras, sinonímia, pronomes e colocação pronominal, uso da vírgula. Veja quanta coisa em uma só questão! Assim, quando se deparar com esse tipo de pergunta, analise cada uma das alternativas, voltando ao texto para ver como os elementos gramaticais estão funcionando. Neste caso:

  1. As palavras imposição e imparcial não têm um prefixo com mesmo sentido, pois a palavra imposição tem a partícula im- em sua raiz (isto é, não se trata de prefixo), enquanto imparcial de fato tem um prefixo, cujo sentido é de negação.
  2. As palavras postulado e crença não são sinônimas, mas alternativas para uma situação, ou seja, alguns veem a questão como postulado, outros como crença, havendo, portanto, uma nuance de sentido entre elas.
  3. O pronome essa é usado corretamente, uma vez que retoma uma opinião que está distante no tempo.
  4. De fato, no trecho, a vírgula indica a elipse do verbo, ou melhor, da locução verbal “deverá se fazer”.
  5. O pronome os tem como referente o substantivo conhecimentos, e não termos. Para saber isso, basta reler o trecho tentando encontrar o que está sendo retomado.

Viu só em quanta coisa você precisa pensar nesse tipo de questão? Vamos analisar mais uma pergunta, agora da prova do Enem.

  • Questão 128 (Caderno azul – Enem 2014)

Tarefa
Morder o fruto amargo e não cuspir Mas avisar aos outros quanto é amargo
Cumprir o trato injusto e não falhar Mas avisar aos outros quanto é injusto
Sofrer o esquema falso e não ceder Mas avisar aos outros quanto é falso
Dizer também que são coisas mutáveis… E quando em muitos a não pulsar — do amargo e injusto e falso por mudar — então confiar à gente exausta o plano de um mundo novo e muito mais humano.
CAMPOS, G. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. Na organização do poema, os empregos da conjunção “mas” articulam, para além de sua função sintática,

  1. a ligação entre verbos semanticamente semelhantes.
  2. a oposição entre ações aparentemente inconciliáveis.
  3. a introdução do argumento mais forte de uma sequência.
  4. o reforço da causa apresentada no enunciado introdutório.
  5. a intensidade dos problemas sociais presentes no mundo.

(Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2014/CAD_ENEM_2014_DIA_2_07_AZUL.pdf>. Acesso em: 5 out. 2015.)
Mais uma vez, é preciso mobilizar o conhecimento de gramática, mas não só. Ao ler a questão, o candidato pode pensar “essa é fácil, mas é uma conjunção adversativa, logo, ela articula a oposição entre ações inconciliáveis”. Errado!
Veja, primeiro, a questão localiza o que pede “o funcionamento de mas no poema”, segundo, ela sinaliza que deseja saber do funcionamento de mas para além de sua função sintática. Logo, é preciso reler o poema e entender como mas está funcionando nele. Veja que o poema argumenta a favor de um mundo mais humano e, para isso, fala da importância de se aceitar as dificuldades da vida, mas que mais importante que isso é alertar os outros sobre essas dificuldades para que tenham a chance de evitá-las ou de enfrentá-las melhor.
Portanto, mas está funcionando aqui como um elemento que introduz um argumento mais forte. Uma dica: na prova do Enem, há questões que vão além dos pontos gramaticais e de interpretação, cobrando pontos relativos à organização textual, tais como coesão e coerência, gênero textual, discurso, etc. Então não subestime a prova de português!
Ela está mais acessível, pois qualquer usuário proficiente da língua, mesmo conhecendo pouco as nomenclaturas gramaticais, pode realizá-la com sucesso, mas não descuide do estudo da língua (análise do funcionamento) e principalmente da leitura, pois eles serão peças-chave para uma boa prova.
 
Bons estudos e até a próxima!
Profa. Danusa

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