Ontem, dia 15/01/2017, foi o primeiro dia da segunda fase do vestibular da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas – e, como já é de praxe dessa prova, os candidatos tiveram que escrever textos representativos de dois gêneros discursivos diferentes. Neste ano, foi pedido a escrita de uma carta argumentativa (Texto 1) a ser publicada na seção do Leitor de uma revista de pesquisa científica e de um texto de apresentação de uma campanha de arrecadação de fundos para uma biblioteca – a Barca dos Livros – a ser publicado no site da instituição (Texto 2).
A correção da prova da Unicamp, como já anunciado em cursos organizados pela própria COMVEST, é baseada em duas grades: a específica, que leva em conta o gênero, o propósito e a interlocução do gênero; e a holística, ou seja, que olha o texto do candidato de forma geral, considerando a modalidade, a coesão, coerência e desenvolvimento das ideias. Neste texto, vamos comentar as duas propostas deste ano (http://estaticog1.globo.com/2017/01/15/redport.pdf), tendo em mente a grade específica, já que a holística dependerá do texto em si que cada candidato produzirá. Vamos iniciar a análise do Texto 1.
No Texto 1, foi pedido ao candidato para elaborar uma carta para ser publicada na Seção do Leitor da Revista Rio Pesquisa. Nessa carta, o candidato deveria argumentar em defesa do seu ponto de vista, logo o gênero tratava-se de uma carta do leitor argumentativa. Veja que aqui já estamos definindo de forma mais clara o gênero para pensarmos na sua estrutura e propósito social. E qual é o propósito social de uma carta do leitor? É apresentar a opinião do leitor em relação à reportagem ou notícia lida. Mas na prova da Unicamp não bastava apresentar qualquer opinião, o candidato tinha que discutir a relação estabelecida pela autora do artigo entre o conceito de Brasil Cordial, o qual ela critica, e a presença de estrangeiros no Brasil. Este era o propósito da prova e o candidato deveria cumpri-lo, apresentando a sua opinião sustentada por meio de argumentos presentes no próprio texto-fonte: o modo como a autora apresenta e critica o conceito de Brasil país cordial na sua relação de tratamento dos estrangeiros vindos de países mais pobres, como o Haiti, Congo, Bolívia. é um exemplo para a construção de argumentos, assim como a expulsão de estrangeiros na Primeira República. É claro que você também pode questionar a autora, mostrando em sua carta, que considera o Brasil um país cordial pela forma como ele recebe os estrangeiros, mas, como já dito, toda a opinião deve ser sustentada por argumentos fortes e bem colocados.
Porém, para deixar claro ao corretor que você está escrevendo uma carta argumentativa, é necessário que você construa a imagem do locutor, ou seja, do remetente e apresente o motivo que o fez escrever a carta à Revista e/ou aos seus leitores, sendo estes o seu interlocutor. Veja que aqui temos uma forte relação entre o gênero e a interlocução, sendo que esta faz parte da estruturação de uma carta argumentativa. Nesse sentido, é preciso ficar atento ao modo como as imagens são construídas e a forma como você irá conversar com o seu interlocutor. Tratando-se de uma carta do leitor a ser publicada em uma seção específica, você não poderá se dirigir a uma pessoa específica, logo pronomes de tratamento como ‘você’, ‘senhor’ – no singular-, poderão descaracterizar o gênero e a interlocução. Quanto à linguagem, o texto deveria ser escrito conforme a norma padrão, como comumente vemos nas cartas de leitores publicadas em revistas e jornais.
Após essa explanação sobre o Texto 1, vamos ao Texto 2. Conforme já dito no início deste texto, foi pedido para que o candidato desenvolvesse um texto de apresentação de uma campanha de arrecadação de fundos, ou seja, o candidato deveria apresentar a campanha, isso já é um ponto importantíssimo para o gênero texto de apresentação, tendo em mente o seu propósito social. Nessa apresentação, o candidato deveria dissertar sobre a história e as ações da biblioteca Barca dos Livros, para mostrar porque essa instituição é importante para a sociedade e, assim, porque ela deve ser ajudada. Essas informações estão no texto-fonte e o candidato deveria usá-las para construir o propósito do texto.
Em relação à interlocução, é importante que o candidato tenha em mente o modo como textos de apresentação são configurados. Nos textos de apresentação que circulam em nossa sociedade, observamos a construção da imagem da instituição, pessoa ou objeto a serem apresentados, mas não há a construção da imagem do locutor, por isso o candidato não deve se apresentar como voluntário do projeto ao longo do texto e a interlocução deve ser estabelecida com um público geral, assim, pronomes de tratamento como ‘vocês’, para se dirigir a população em geral, ou ‘nós, voluntários’, para falar a partir de sua posição na Instituição, são bem vindos para contribuir na constituição de uma interlocução que não descaracteriza o gênero. Em relação à linguagem, na proposta do Texto 2, era informado que o texto de apresentação seria publicado no site da biblioteca Barca dos livros, instituição que será ajudada pela campanha, desse modo o texto deveria ser escrito conforme as normas padrões do português escrito.
Na análise das duas propostas, podemos observar que os critérios de Gênero e Interlocução se cruzam na estruturação dos dois textos e o candidato deve estar atento a isso, assim como deve atentar-se ao que foi pedido nos textos para construir os propósitos. A prova da Unicamp, nesse sentido, não analisa apenas a escrita, mas a capacidade do candidato em compreender o que foi pedido e articular a sua escrita e ponto de vista com as informações dos textos-fontes. A prova da Unicamp é, portanto, uma prova que avalia leitura e escrita.
 
Esperamos que essa análise tenha ajudado a compreender um pouco mais estes dois gêneros tão interessantes e tão presentes em nossa sociedade.
 
Abraços,
Equipe EscreverOnline

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